quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Muito bem...

sempre estou com o último cigarro

com a última cerveja

com a última conta

esperando a última gota

de esperança se esvair

dos meus olhos


Dexter Gordon

tocava bem,

eu minto bem,

me engano sempre e

engano os outros muito bem


eles querem ser enganados

querem minhas mentiras

ouvem atentamente as elucubrações

de sanatório que regurgito

acham algumas vezes que sou

inteligente

mas não sabem

que estou sempre me acabando

sendo comido por dentro

pela futilidade pedante

que me deixo levar


todos ao meu redor são assim

mentem muito bem

atuam junto comigo em

uma peça muito bem ensaiada


pedi demissão desse grupo de teatro

voltei para os meus últimos cigarros

minhas últimas cervejas

e minhas últimas contas

para esperar essa última

gota de esperança

escorrer

e se misturar ao mundo

numa explosão de supernovas


que me levará ao oriente

a templos budistas

me deixando de fronte a

BUDA

para andar na palma de sua mão

me sentar nela

e lhe contar as minhas profecias

fazer dele meu discípulo

lhe ensinar o poder da embriaguez

consciente

enquanto me embriago

com as mais lindas

pernas orientais que giram o mundo

em seu compasso diminuto


vamos subir nas mais altas

torres e comer pão a céu aberto

deixar cair as migalhas nos transeuntes

rasgar livros para que montem o quebra cabeça

e deixar tudo isso para andar

nas conchas do pacífico


depois iremos nos despedir

pois estarei andando e entrando

nas abobadas mais amorosas

e quentes que já se viram

busco nelas a paixão de me fazer

PARAR

RESPIRAR

E MORRER


mas antes de todo esse cataclismo

hipnótico


o último cigarro

a última cerveja

a última conta

Emilíana Torrini - Jungle Drum