quarta-feira, 29 de julho de 2009

Canção do vento

Eu deveria salgar minha língua

Para tirar essa abissal doçura poética

Que formiga nos meus lábios

E se acaba no papel


Deveria ouvir mais os meus amigos bêbados

Desnudar meu corpo

E sangrar a céu aberto

Correr entre os carros que passam

Desgovernados

Gritando ao ouvido de seus motoristas

Que parem o motor e liguem a vida


Deveria rir das piadas que conto

Sem fingir que sou bom

Fazer correr nos meus olhos

As cores vividas da terra

Deixar os atabaques cantarem

Os meus passos


Deveria me entregar ao mundo astral

Transar com os deuses e com todas

As constelações

Deixar o sol se por e

Se levantar quando estender a

Noite que é sempre ávida

E cheia do amor puro e sensual

Da adolescência


Deveria lembrar que os meus ombros

Sempre doem no fim do dia

Que minha cama está sempre vazia

E o chão coberto de mim


Devo, devo, devo...


Preciso, preciso, preciso...

Emilíana Torrini - Jungle Drum