segunda-feira, 13 de junho de 2011

Fumaça hedonística – Parte I



Com a chegada da década de 90 as restrições subliminares que a sociedade impôs sobre os demais no quesito saúde afetaram também aos negócios, mas a que mais incomodou o Dr. Alberto foram às novas leis que restringiam o consumo de tabaco – cigarros e derivados – em locais públicos e de trabalho.

Dr. Alberto, advogado, com aproximadamente 40 anos começou a fumar aos 13 anos de idade, aprendeu a saborear o tabaco, os charutos cubanos caros que comprava de um doleiro, o seu cachimbo com fumo irlandês, mas não deixava faltar no bolso de seu paletó o sua velha companheira, uma carteira de cigarro cheia esperando pelo chamado.

Mas além do cigarro o que mais agradava Dr. Alberto nos últimos tempos era a chegar em seu escritório e chamar Emanuela, sua secretária de 22 anos que acabará de começar o curso de direito, influenciada pelo chefe. Emanuela era loira, com um corpo normal, possuía apenas um busto mais avantajado do que as demais mulheres, mas o que deixava Dr. Alberto excitado eram as saias extremamente apertadas de Emanuela, daquelas que iam até o joelho, ver aquele par de pernas longo zanzando pra lá e pra cá fazia Dr. Alberto se sentir no paraíso.

Tentou várias vezes chamar a secretária pra sair, prometia casamento, roupas, apartamento, tudo que ela quisesse, mas Emanuela sempre respondia sorrindo:

- Ah Dr. Alberto, para com essas brincadeiras e vamos trabalhar!

Dr. Alberto sempre ficava pensando quando ouvia essa resposta: “Será que ela acha que estou brincando? Será que ela não entende que quero ela de verdade ou só está jogando comigo pra ver até onde eu iria pra provar que realmente que ficar com ela. Já faz um ano que fico nessas tentativas e ela sempre responde a mesma coisa, se ela realmente achasse que era brincadeira depois de um ano mudaria sua resposta, essa menina está realmente brincando comigo! Mas ainda a pego de jeito!”

Mas para piorar o desejo de Dr. Alberto, um advogado recém formado, Rubens, que fora recentemente contrato havia se interessado por Emanuela e ela retribuía tal interesse levando cafezinhos e bolinhos para o novo colega de trabalho. Dr. Alberto rasgava pelo menos duas pastas quando via aquela cena e logo mandava Rubens fazer serviço de rua, ficando com apenas um pensamento na cabeça: “Será que é por causa da idade ou ela está me provocando?”

Não demorou muito e aqueles dois começaram a sair para aumentar o sofrimento de Dr. Alberto, dava dó da tristeza com a qual se dirigia para o escritório e dava medo dos acessos de raiva que passou a ter por conta de qualquer besteira.

Para piorar passou a fumar muito mais em seu escritório, ao ponto de incomodar os funcionários, que sempre se dirigiam a Emanuela:

- Vai lá e fala com o chefe que tá fedendo muito aqui, mesmo com a porta fechada a gente ainda sente o cheiro dos cigarros!

- Pode deixar que vou pedir para ele tentar diminuir o cigarro! – Respondia Emanuela e se dirigia a sala do chefe.

- Dr. Alberto? – Perguntava batendo na porta.

- Pode entrar Emanuela!

- Com licença Dr., eu não queria me intrometer na sua vida mas os outros funcionários estão reclamando muito do cheiro de fumaça do escritório do senhor.

- Se não queria se intrometer já se intrometeu! Você me vê falando alguma sobre o seu comportamento?! Vê? Vê? Claro que não, ainda mais quando está saindo com um frangote feito o Rubens, isso sim é algo que incomoda os outros! Agora sai da minha sala e vai fazer o seu serviço!

- Claro Dr., desculpa incomodar.

Ela sai da sala meio atordoada. Todos no escritório estão estáticos vendo-a se sentar em sua mesa. Escutaram apenas um murmúrios, mas sabiam que havia tomado uma bronca. Foi a primeira vez que Dr. Alberto a tratara assim, nunca havia sido grosseiro com ela. Mas o que mais a incomodou foi a fala sobre o seu recente namoro com Rubens. Percebeu que todas as vezes que achou que Dr. Alberto falava aquelas coisas pra ela não eram brincadeiras. Pensou instantaneamente em largar o emprego. Não sabia se poderia ou não continuar trabalhando ali. E do nada lágrimas começaram a correr em seus olhos.

- O que aconteceu Emanuela? O que ele te falou? – Perguntava Rubens, mas ela só ficava chorando o que acendeu a chama animalesca de proteção da fêmea amada em Rubens.

- Eu vou tirar satisfação com ele! Quem ele pensa que é? – Falou Rubens saindo em passos largos e pesados em direção a sala do chefe.

Foi parado apenas por um som baixo, mas ainda pesado que chegou aos seus ouvidos quase como um sussurro. Era Emanuela.

- Se você entrar naquela sala estará tudo acabado entre nós!

Aquela pequena frase o congelou. Suas pernas que caminhavam firmes pareciam gelatina agora. Tentou argumentar.

- Mas...

- Fique quieto e volte ao trabalho! – Foi interrompido antes mesmo de completar uma frase.

Seguiu calado para sua sala. Igual a um preso que segue condenado para a sua cela com apenas o sentimento de ter sido abandonado por todos. Se sentou jogando o peso da dor e do medo que aquelas palavras caíram sobre sua cabeça.

Já na sala de Dr. Alberto este estava transtornado com as palavras que havia dito não conseguia pensar direito: “E agora? O que será que vai acontecer? Eu não deveria ter sido grosseiro com ela, e se ela se demitir? Pior que isso, ela agora sabe que estou com ciúmes do relacionamento dela?”. Só passava a mão na cabeça desesperado. Não conseguindo ficar ali, deu o seu expediente por terminado. Foi para casa se encharcar no whisky e em seus charutos cubanos.

Emilíana Torrini - Jungle Drum