sexta-feira, 29 de maio de 2009

The real folk blues

Tinha acabado um livro de Kerouac e vesti meu blue jeans pensando que definitivamente não sou como os beat’s. Eles amavam o jazz. Prefiro um blues. Gosto de ouvir Sony Boy com sua gaita me fazendo esquecer da poeira que bate nos meus olhos todos os dias. Ainda mais aqui onde só se tem construções. Até que eu chegue no metro vai ter muito chão e muito pó. Prometi levar dois livros pra dois amigos. Mas para comprá-los vou ter de andar muito. Pelo menos até o metro e depois dentro de sebos e livrarias. Mas a minha recompensa será uma boa cerveja na volta. Meu aniversário chegando e eu indo comprar presentes para os outros.

A estação se parece com uma sala de espera. Daquelas onde ninguém se conhece, mas sabe o porquê de se estar ali. Todos se olham e praticamente se conhecem. Dividem o mesmo fato. A mesma história por alguns minutos. Mas ao se passar da porta do metro as coisas mudam. Ainda mais no final do dia. Os rostos cansados, abatidos e domestificados dos trabalhadores mostram o resultado de seu trabalho. Os únicos que não parecem cansados são os jovens com menos de 18 anos. Ainda não sentiram a humilhação de se vender e valorizar o fruto da sua venda pessoal.

Um banco vaga ao meu lado. Todos se olham. Me olham. Esperam que eu sente. Esperam. Me olham denovo. O banco ainda está vazio. Um careca senta com a satisfação de um animal quando recebe um carinho do dono. Mas o seu sorriso não muda por muito tempo, logo ele se junta a multidão de pessoas cansadas. Apóia a cabeça na palma de sua mão e o cotovelo na janela. Mesmo que por uma estação ele deixará o peso da sua vida escorrer naquele banco.

Na minha cabeça ainda vem à melodia de Sony Boy. Sua gaita é impressionante. Me faz até ter um sorriso bobo estampado na cara. O ritmo balbuciante do metro nos trilhos me lembrou a sua batida. A boa música não vai me abandonar. Ela nunca abandona quem a espera.

Na última estação eu desço. Horário de pico. Final de expediente. Milhares de pessoas rodeando o mesmo lugar. Acima da estação de trem há uma central de ônibus com dezenas de bancas ao redor, pode se comprar de tudo ali. De aparelhos eletrônico a um bom estimulante mental. Ali é onde toda a população que conheceu apenas a moral do operário se encontra. Esse é o meu lugar. Onde acho os meus iguais. Pastores evangélicos pregam nas escadas, e seus fieis distribuem folhetos prontos para lhe conceder o perdão dos seus pecados e o Reino dos Céus de forma instantânea. Mendigos rodeiam os bares pedindo mais um trago diário.

É fácil identificar as prostitutas que rondam os ônibus. Elas são as únicas a terem a maquiagem muito bem feita e provocante. No final de expediente. Não há baton que resista na boca de uma mulher que trabalhou oito horas seguidas. Mas o dia para a prostituta só está começando, a noite é o seu local de trabalho. Seu andar tem um balançar único. Elas sabem como movimentar suas pernas. Poucas são a mulheres que sabem mexer as pernas como se deve.

Chegando a porta da estação tenho duas escolhas, ir para a esquerda ou a para a direita. A direita irei para um Shopping atrás da minha busca literária. A esquerda tenho a possibilidade de respirar o cheiro de urina jogado no concreto frio de uma galeria de lojas que um dia foi um centro de diversões para adultos. A pior escolha deve vir primeiro. O Shopping. Nunca aprendi a andar nesses lugares. As mulheres ali nunca me excitam completamente. Me sinto ignorado, inexistente. Perdi uma hora em vão. Não achei o que          queria.

A minha recompensa está há alguns metros dali. O antigo centro de diversões. A sua imagem a distância é bela. O concreto me chama com sua frieza. Um cigarro vem a minha boca quase que instantaneamente. Essa fumaça me alivia. Sua cor acinzentada é pura. Como as galerias que me esperam. No meio dessas galerias encontrei três igrejas evangélicas, vários cafés, lojas de discos, sapatos, livros jurídicos, um velho sebo que estava fechado e vários bares no centro de todas as lojas. Tinham mais três cinemas pornôs onde se paga de 10 a vinte 20 e recebe um pacotinho de lenços de papel para se limpar ao término da sessão. Cada cinema pornô parecia competir com cada igreja.

Escolho o bar. A mesa. A cerveja e logo arrumo companhia. Um contador se senta na minha mesa. Ofereci um assento para ele.

- Tudo bom? Prazer meu nome é Carlos. – se apresenta depois de sentar.

Com tantas mulheres passando e se oferecendo pra nós por apenas uns trocados logo nossa conversa cai sobre como as mulheres podem ser safadas. Ele começa então.

- Cara, eu era amante de uma mulher. Ela largou o marido e hoje nós namoramos. Olha pra tu ver como são as coisas.

- Tu já aceitou que é corno? – dou uma boa golada na minha cerveja e espero a resposta.

- Que isso cara! Ela não faria isso! – me respondeu com os olhos estufados, dou mais uma golada pra poder dar a resposta que ele já sabe.

- Ela traia o marido com você, agora ela te trai com outro. Nunca subestime uma mulher que conheceu o sexo nos braços de outro homem. – ele coça a cabeça, se preocupa e muda de assunto.

Algumas cervejas depois e quase uma carteira de cigarro vou voltar pra casa sem os livros e com um jornal ganho gratuitamente na estação de ônibus. Com o nome perfeito, o jornal se chama “O Coletivo”. Um bom jornal, tem notícias locais e do mundo todo, além de uma seção de variedades. No metro ainda há os trabalhadores cansados. O balanço recomeça e a batida do blues me vem a cabeça.

Uma loira se encosta no primeiro apoio depois da porta do metro. Deveria ter uns 40 anos de idade, mas o tempo parecia não ter tocado muito o seu corpo. Tinha apenas as mãos um pouco machucadas. Com as unhas feitas, das mãos e dos pés, uma calça que realçava o formato de seu corpo ainda capaz de ceder a noites e mais noites sobre uma cama qualquer. Ela limpa o rimel de seus olhos. Todos os homens ao seu redor a observam, pelo menos por alguns instantes, até sentirem que aquela mulher de olhos verdes era irredutível. Com uma aliança de casamento nova no dedo, ainda brilhava bastante, o marido deu de surpresa para ela, talvez tentando renovar os votos de um casamento de anos, era maior que o seu dedo, deslizava, mas não caia. Por isso deveria ser um presente surpresa.

Ela tira metade de uma barra de cereais de sua bolsa. Deve trabalhar muito. Nem teve tempo de comer aquela pequena barra inteira. A devora. Seu rosto mostra que sentira o sabor da satisfação. Aplacara sua fome. Ninguém parecia mais a observar. Eu não deixaria de olhar para uma mulher tão melodiosa. Ainda mais quando percebo seus olhos incharem. Limpa novamente o rimel. Faz isso várias vezes. Começou a chorar. Um choro contido. Preso dentro do peito. Limpava cautelosamente para que nenhuma lágrima escapasse de seus dedos ágeis. Mas lágrimas são pesadas. As dela pareciam de chumbo. Uma consegue fugir de sua agilidade. Escorre e vai parar na ponta de seu lábio superior. Limpa e contém o choro. Ninguém viu essa lágrima cair.

Em alguns instantes chegarei na minha estação. Seguro no mesmo apoio que ela. Espero as portas se abrirem. Me aproximo de seu ouvido e digo a única coisa que poderia sair da minha boca.

- Foi lindo, te ver chorar!

Desço e paro diante da porta. Acendo meu último cigarro e volto pra casa. Quero terminar de ler “O Coletivo” ainda hoje.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

12 mortos e 13 feridos no Azerbaijão


Sai para mamar uma cerveja enquanto decidia se iria ou não procurar emprego. Sentei em um bar qualquer e fiquei ali olhando pra uma tv no lado esquerdo do balcão. Só vendo os rostos passarem sem significado. A razão de todos os bares terem um tv sempre foi um incógnita pra mim. Acredito que seja para os garçons não ficarem entediados. Mas um rosto teve significado. Era Gadyrov. Um dos meus vizinhos. Tinha se mudado para cá há uns três meses. Veio do Azerbaijão. Bebia e fumava o dia inteiro. Trabalhava como tradutor de francês para uma editora. Mas o que ele teria feito?

- Aumenta o volume da TV ai! – disse pro garçom que nunca deve ter ouvido esse pedido na vida dele.

- Só um minuto.

A repórter estava na porta de uma Universidade no Azerbaijão e dizia que o jovem Gadyrov matara 12 pessoas e ferira outras 13 antes de se matar. E que ninguém sabia o motivo deste ato bárbaro. Não pensava que ele seria capaz de algo assim. Tinha sumido à duas semanas. Conversei com ele umas cinco vezes nesses três meses que ele estava morando no apartamento do lado. Em uma dessas vezes ele me chamou para beber na sua casa. Disse que tinha umas cervejas e uma garrafa de um bom vinho tinto. O vinho era bom. Seco. Do jeito que eu gosto.

Ele me contou a sua história. Que dois anos atrás sua noiva o largou. Mesmo ele tendo pagado os estudos dela. O motivo é que ela conhecera um mundo diferente. Que o mundo acadêmico era diferente do mundo que ele oferecia pra ela. Gadyrov era uma boa pessoa. Morou três anos na França e tinha voltado pro Azerbaijão para trabalhar como tradutor de francês. Conheceu Ólya quando ela trabalhava como garçonete em uma lanchonete. Começaram a namorar e ela mudou pra casa dele.

O romance tinha começado bem. E Gadyrov estava cada dia mais apaixonado. Dava inúmeros livros para Ólya ler. Ensinou pra ela o francês e fez ela retomar os estudos. Ela não havia terminado o ensino médio. Tinha parado no fundamental. Disse que se ela se saísse bem ajudaria ela a pagar uma faculdade. Ela era inteligente. E esforçada. Não perderia uma oportunidade de mudar de vida assim. Estudou e entrou para a Academia Estatal do Petróleo.

O que era um sonho foi se enfraquecendo aos olhos de Gadyrov. Ela que só o via. Agora tinha amigos. Colegas de estudo. Trabalhos para fazer. Começaram a se distanciar. Só não se distanciaram na cama. Era um alívio pra ele. Provava que ela ainda era dele. E pra tentar resolver o problema da distância a pediu em casamento. Se com mulheres isso resolvesse a taxa de divórcios e o número de bêbados nos bares a tarde não seriam tão grandes.

Então o esperado aconteceu. Ela o largou. Ele contava isso chorando e bebendo no gargalo da garrafa de vinho. Chorou mais um pouco e secou a garrafa. A jogou dentro do banheiro onde tinha mais umas duas. Enxugou as lágrimas e começou a esbravejar:

- Um dia ainda mato aqueles professores, aqueles monitores que tiraram ela de mim! – gritava engolindo o choro.

- Que isso Gadyrov, os caras não teem culpa! Ela foi embora porque quis, elas sempre inventam desculpas, mas vão porque enjoaram da gente.

- Não foi isso, sempre nos entendemos bem! Aqueles professores falaram pra ela ir estudar fora, que ali e casada ela não teria futuro!

- Calma ai Gadyrov, acabou porque tinha de acabar, tudo o que você poderia oferecer pra ela já tinha sido oferecido. Ela queria mais, só isso! Me dá uma cerveja ai!

- Eu poderia oferecer muito mais pra ela, uma casa boa, uma família...

- Mas ela queria mais que isso, ou nem isso!

Chorou mais um pouco e desabou. Fechei a porta levando comigo seis cervejas como pagamento pela conversa e fui embora. Toda vez que o encontrava depois disso ele estava bêbado. Gritava que iria matar aqueles que tiraram Ólya dele. Fazia esse show todos os dias na porta do prédio. Eu ficava na janela bebericando uma cerveja e assistindo o pobre gritar até se cansar. Caia sentado no chão e o porteiro do prédio o levava pro seu apartamento. Só escutava a reclamação.

- Esse cara não aprende mesmo, todo dia tenho de traze-lo pro seu quarto, não recebo pra isso.

A vida é sempre põe uns loucos no mundo. Alguns só fazem promessas de fazer loucuras. Mas de vez em quando tem aqueles que cumprem o que prometem. E Farda Gadyrov foi um desses. Matou 12 e deixou 13 feridos.

- Mais uma cerveja! – sem isso não dá pra engolir a notícia.

 

Notícia retirada do site:

http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,ataque-a-universidade-no-azerbaijao-deixa-12-mortos,363421,0.htm

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Duas latas de cerveja e um rosto estatelado no pára-brisa

Faz dois anos que estou morando com Ann. Nem sei direito como isso aconteceu. Parece que ela morou durante quase dez anos com um cara que a maltratava. Que ele nunca a respeitou direito. Bater não batia. Mas era grosseiro. Eles terminaram e eu estou aqui com Ann e nesse tempo que moramos juntos só trabalhei quatro meses. Ganhei algum dinheiro. Emprestei trocados para alguns amigos. E bebi o resto. Talvez tenha pagado umas duas ou três contas. Fora isso ela sempre me sustentou. Cada trago tomado e cigarro que caiu na minha mão saiu do bolso dela. Não há orgulho em trabalhar. Nem humilhação em ser sustentado. Hoje é sábado. Ela vai fazer um curso em outra cidade. Está tentando arrumar um terceiro emprego.

- Volto depois das 9:30 da noite!

- Ok... e quem vai te buscar?

- Um colega do trabalho!

- Tudo bem então, faço alguma coisa pra comer, mas me deixa algum trocado!

Me deixou dez pratas. A buzina tocou lá fora e ela foi embora. Liguei a tv e assisti três horas de imagens coloridas. Desde que inventaram o controle remoto e o botão de mudo assistir televisão se tornou um programa mais divertido. Bebo algumas cervejas e fico imaginando o que as pessoas na tela estão falando. As vezes tento fazer leitura labial. Parece que sou bom nisso, poderia até arrumar um emprego de leitor labial. Ou será que eu queira acreditar que tenha alguma habilidade além de beber e dormir. Dormir é o que faço melhor. Exceto me masturbar. Até bater na máquina perde o sabor se tenho um travesseiro ou batendo uma punheta. Agora é hora de uma boa cochilada.

Durmo umas duas horas a fio. O sofá azul de veludo que Ann comprou depois que eu vim pra cá é o melhor lugar para descansar. É macio e sedoso. Já dormi em lugares ruins. Em camas estreitas. No chão. No carro. Ao relento. Posso me dar ao luxo de dormir em um sofá azul de veludo. Um banho e uma punheta. Essa é a melhor decisão do meu dia. Até vou fazer a barba pra ficar mais novo. Tenho de deixar os buracos deixados pelas espinhas no meu rosto respirarem de vez em quando. Umas lâminas depois. Ganho três a quatro anos a menos na minha aparência. Tinha de parecer bonitão. Ou pelo menos simpático pra não sofrer nenhuma rejeição imediata já que ia para uma festa. Ganhei de um convite de um amigo para essa festa em um grande clube. O cara ia ser o porteiro. Nem revistado eu seria. Não tocariam na minha intimidade. Minhas bolas estariam a salvo de um aperto brutal.

Pego o carro zero comprado a prestação por ela, dou uma olhada no retrovisor. E vamos gastar as dez pratas diárias ganhas por parasitar essa casa. O clube já estava cheio. Para o carro em uma rua colateral. Aceito o pedido de um garoto para viajar o carro e vou para a entrada. Áquila, era o nome do cara que me deu o convite. Ele está lá sentado em um cubículo recebendo o dinheiro e fazendo sorrisos agradáveis para pessoas estranhas.

- E ae cara, é só entrar!

- Pode ir lá, já dei seu nome pra Regina!

- Regina, esse ai ta liberado. – ele grita da cabine usada como caixa para a venda de convites.

Ninguém tocou em mim. Passei pela portaria e fui atrás logo é de onde se vendiam bebidas. Uma mulher lá pelos quarenta e cinco anos me atende com um sorriso vendido. Compro uma cerveja e vou olhar o lugar. Estava cheio de gente nova. Garotos que não passavam dos vinte anos de idade. Pulando ao som de uma batida infernal. Só tinha batida a música, parecia que alguém cantava, mas não se ouvia nada além de batidas. O local parecia um ritual tribal. Todos dançando. Alguns casais se pegando nos cantos. Outros tentando a dança certa para acasalar. Rapazes já sem camisa e garotas com mini roupas. As mini roupas são maravilhosas. Mas as batidas me expulsaram dali.

Voltei para a entrada da festa. Áquila provavelmente seria a única companhia que teria aquela noite. Passei algumas horas conversando com ele. O assunto principal foi à música. O sexo. As garotas loucas pra achar alguém que lhes pagasse uma bebida. Que no máximo dariam uns beijinhos no cara. Mas se na chave do carro tivesse um emblema caro, ela seria dele aquela noite e mais algumas até conseguir o que queria. Gostava disso. Conhecia o jogo. Perdia sempre. Mas conhecia o jogo. Sempre fui procurado por garotas estranhas. As loirinhas com maquiagens muito bem feitas nunca vieram pra mim. Se vierem um dia meu vigor e vontade de tê-las já não será mais o mesmo.

Mais duas cervejas e é hora de voltar pra casa. Vou preparar um grude antes que Ann chegue. Tenho de buscá-la em um posto de gasolina onde o seu amigo vai deixa-la. As minhas noites têm sido assim há algum tempo. Poucas mulheres. Ou nenhuma. E muita conversa de bar. No balcão ou na mesa de bar sempre se acha bêbados diferentes. O mundo é cheio deles. E cada um tem uma história diferente para lhe contar. Mas todos já tiveram a melhor mulher do mundo. Conheceram o que é o amor e a riqueza. Mas é a vida como eles dizem. Uma hora se ganha, outra hora se perde. Eu não tenho nada a perder. Nunca tive a melhor mulher do mundo. Conheci pouco do que dizem ser o amor. E nunca fui e provavelmente nunca serei rico. Vivo parasitando uma mulher desiludida com a idéia de amor e relacionamento entre homem e mulher. E se um dia eu tiver todas essas coisas saberei como viver sem tê-las.

Dou uns trocados para o garoto que vigiava com os olhos fixos no meu carro e vou embora. Minha noite estava normal. Passava os olhos nas garotas que andavam de salto alto pelas ruas. Os travestis já estavam trabalhando no lugar de sempre. E já tinha tomado algumas cervejas. Só não esperava que depois de virar uma rua que dava para uma avenida um bêbado em uma lambreta velha atravessaria na frente do meu carro. Ainda olhei as meninas que estavam do outro lado da rua esperando eu passar para atravessar começarem a gritar quando eu ia bater em um infeliz. Voltei os olhos para o bêbado que começava a subir em cima do capo do carro. Nossos olhares se cruzaram. Ficaram fixos um no outro durante poucos milésimos de segundo. Ele voava para cima de mim. Se não fosse o para brisa parando a sua face e fazendo seu nariz quebrar ele teria vindo diretamente sobre mim.

Com o pé atolado no freio o carro para e joga o bêbado na rua. Ele cai nos pés das garotas que estavam na beirada da rua. Elas continuaram a gritar. O cara estava no chão. Em segundos a rua que estava vazia lotou de gente. Chamei uma ambulância e a polícia para fazer uma ocorrência do acidente. O cara se levantou e recusou tratamento médico. Implora para que não chamasse a polícia. No mesmo instante aparece um carro amarelo e busca o atropelado. Deixou moto lá mesmo e foi embora. Deixou o carro de Ann amassado e um monte de asas de frango espalhadas pela rua. Havia ido ao açougue buscar frango para assar em um churrasco. Um amigo do atropelado vem até mim bêbado. Dizendo que o cara realmente estava mais bêbado do que ele e que pagaria todo o conserto do carro porque ele não era de beber e era um bom homem que assumia suas responsabilidade. Acreditei no amigo bêbado do atropelado.

Que importa o conserto do carro. Queria ver como eu explicaria para Ann o ocorrido. E estava perto da hora de buscá-la. A polícia chegou anotou tudo que tinha de anotar. A ambulância veio, mas o atropelado tinha já sumido. As pessoas começaram a ir embora e eu também fui para casa. Lá liguei para o celular de Ann e a avisei sobre o acidente e que não poderia ir buscá-la no posto e que o amigo dela a trouxesse para casa. Na hora que lhe contei nem gritou ou falou alguma coisa a mais. Apenas disse que estava tudo bem e que quando chegasse as coisas iam se resolver. Tomei um banho. Botei uma cueca e fui para o quarto deitar. Antes de pegar no sono só conseguia ver o rosto estatelado do cara no meu pára-brisa. Um segundo realmente pode ser uma eternidade quando se passa por um acidente de carro.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Escritores, cachaça e elucubrações

Quase todo sábado Sousa vinha a minha casa para bebermos em algum lugar. E essa semana não seria diferente. As vezes nem bebíamos. Apenas saiamos andando por ai. Rodávamos a cidade. Sousa escrevia e sempre me mostrava seus manuscritos. Nunca gostei de ler nada de outros escritores. Mas a maioria das pessoas que conheço são escritores. Também escrevo. Mas a minha pretensão é pequena. Não quero um best seller. Ou um nobel. Só escrever me basta. Se pudesse viver das minhas batidas no teclado, tudo bem. Não me preocupa isso. Mas para Sousa era algo diferente. Cada volta que dava gravava na cabeça as idéias e maneira de ver as pessoas. Essa era a maneira de se inspirar. E escrever isso é o que o motivava. Pra ele sua escrita tem uma importância gigante. Só não morreria por ela. Talvez ninguém morresse pelo que se escreve.

Então saímos no seu carro e fomos buscar sua esposa no trabalho. Era casado e com dois filhos. Suas responsabilidades nunca afetaram seu romantismo. Tinha quase quinze anos a mais que eu. Começara a escrever tarde. Fez curso superior. Pós-graduação e virou um literato. Sousa vivia de nostalgia. Me levava para lugares que achava que não conhecia. Me subestima o tempo todo. Talvez seja isso que o faz andar comigo. A idéia de ter coisas pra me mostrar. Ele gosta disso então não me importo. Até gosto do jeito estranho que ele tem de conviver comigo. Pelo menos não é apelativo como os outros que lutam para manter uma amizade. Só andamos juntos e bebemos de vez em quando. Pra mim isso basta. Um bar e algumas cervejas na mesa. Meus melhores amigos são os meus companheiros de bebida. Enquanto se bebe. Só se bebe. Não se precisa de mais nada.

Fomos em um mercado ao ar livre provar uma cachaça que ele dizia que era uma das melhores que já havia tomado. Na banca veio um senhor gordinho. Com o rosto vermelho. Esse realmente era o lugar certo. E a bebida deve ser muito boa ou o cara é realmente muito infeliz pra já estar mamado.

- Aqui tem a melhor cachaça da cidade! Como vai seu Luis?

- Como a vida manda rapaz!

- Baum, baum. Tem daquela cachacinha pra dar um bico ai?

- Na hora! Pode ser na cuia mesmo?

- Oh, se pode!

- Essa é boa mesmo!

- Quer provar rapaz? – Me pergunta com um olhar complassivo.

- Manda ai!

Não consegui tomar em um gole só. Era boa, mas forte.

- Ai ó seu Luis, o rapaz até se engasgou! Ha, ha, ha, uhhh, ha, ha, ha...

- Boa mesmo a cachaça!

- Não te disse que era boa! Então seu Luis, tem uma garrafa dessa pra me vender ai?

- Tenho só mais uma aqui, mas te faço ela por 10!

- Me dá três ai!

- Só tenho cinco!

- Toma dois então e me dá os cinco! Aqui seu Luis, obrigado!

- Mais um bico?

- Na hora!

- E você aceita mais um bico também?

- Não, não, pra mim já ta bom!

De volta pro carro continuamos a andar pela cidade até dar a hora de buscar a mulher de Sousa. Passando pelo centro da cidade tinha um bar aberto com um monte de prostitutas. Sousa queria parar. Mas lembrou da esposa e disse que nunca poderia leva-la em um lugar desses. Mas que queria voltar lá sem ela. Ele é daqueles que escrevem sobre as grandes experiências que tem. Vai em lugares estranhos, faz amizade com qualquer um apenas para ter material para escrever. Sua escrita vem dos outros. Das histórias alheias. Ele é bom nisso. Mas não é tão bom quanto pensa. Nem eu sou tão bom quanto acreditava. Escrever é uma coisa e ser capaz de viver disso é outro bem diferente. Numa de nossas conversas disse isso pra ele.

- Sousa?! Ainda falta muito para nós dois sermos chamados de escritores. Falta muito mesmo.

- É... eu sei disso. Mas o importante é continuar a escrever!

- Escrever é necessário...

À noite ele me liga:

- Posso até não escrever tão bem, mas sou melhor que aquele escritor que escreveu O Apanhador no Campo de Centeio! Como é o nome dele mesmo?

- Salinger!

- Esse mesmo! Escrevo melhor que o Salinger!

- Ta bom!

- E cadê seu último conto? Vai ficar escondendo as coisas que escreve?

- Ta pronto, depois te mostro. – Amigos escritores só lêem os que os outros escrevem para que também sejam lidos, é melhor então que nunca saibam que você escreve também.

- Beleza então, até mais!

- Até!

Esse é o tipo de cara que ele é. Gente boa. Uma montanha de dureza até chegar perto da família. Um cara que quer ser um grande escritor deve ser realmente duro em todos os lugares. Indo para a escola onde sua mulher trabalha passamos por um bar que freqüento durante a semana pra conversar com um maldito. O cara estava lá chupando a sua cerveja enquanto eu curtia um passeio de carro. O passeio é bom. Mas a cidade parecia que ia derreter de tanto calor. Só queria um gole daquela cerveja.

O telefone de Sousa toca. Era seu padrasto. Disse que sua esposa já o estava esperando na porta da escola. Estávamos virando a rua para encontra-la. Na porta ela vem correndo e vamos para a casa da mãe de Sousa. Ela mora três ruas acima da minha casa. Por isso o vejo com uma certa freqüência. Passamos denovo na porta do bar. Dou com a mão para o cara. Só a mão. Meus trocados ainda valem algumas cervejas. Mas estou com Sousa e sua esposa agora. Temos de ser bons homens. Mesmo ela sabendo que preferiríamos estar bebendo a ir buscar ela no trabalho. Ainda temos uma garrafa de cachaça no carro. A tarde ainda não acabou. Dá tempo pra aliviar o estresse de ficar a toa pela cidade.

Mas ao tirar a garrafa do carro na porta da casa da mãe dele sua mulher esbraveja:

- Deixa isso ai! Senão vai beber tudo rapidinho!

- Que isso nega, tu não me conhece?!

- Vamos entrar logo!

É a minha deixa.

- Sousa a gente se vê por ai!

- Não vai entrar?

- Não cara, fica pra próxima.

- Beleza, falou!

Meu carro tinha ficado estacionado na porta de casa. Ainda dá tempo de tomar uma cerveja sem elucubrações sobre as motivações dos outros e sem observações da vida cotidiana. Ainda quero escrever. Bater na máquina. Até publicar uns textos por ai. Só não quero ser lembrado em uma das historietas do Sousa. Não tenho um motivo pra viver. A vida é que me mantém vivo.

Emilíana Torrini - Jungle Drum


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