segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Câmara de gás
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Um Pouco de Ilusão
- Saia daqui agora! Aqui não é lugar de brigas!
Assim, cai em cima de um monte sacos de lixo ao lado da calçada expulso de um bar. Ali afundado no lixo apenas com a boca amostra acendi um cigarro e relaxei. Meu descanso acabou com o sol vindo queimar minhas retinas e com aquela mão estendida pra me levantar. Não me lembrava direito quando a tinha conhecido. Mas foi no meio do lixo que ela me ajudou.
- Quer um cigarro? - perguntei.
- Não, e você que ficar ai? - já estava confortável ali. Mas aceitei a ajuda. Me levantei pegando naquela mão de unhas vermelhas descascadas. Dei uns tapas na calça e olhei pra ela. Ria descontroladamente.
O condomínio Sunrise é um condomínio de kitnets. Ou seja. Sem nenhum cômodo alêm do conjugado de quarto-cozinha-sala-de-estar e um banheiro separado. Lá só moravam desempregados, drogados, traficantes, estudantes universitários pobres, prostitutas e algumas famílias de imigrantes. Só os excluídos iam pra lá. Fui pelo preço já que meu emprego de vendedor não me paga tão bem.
Ela tinha um cabelo preto cortado bem curto. Estava de calça jeans. Um sapato normal. Uma blusa vermelha e uma bolsa colorida do lado direito e uma mala de rodinhas do lado esquerdo. Não era tão bonita e nem feia. Mas tinha uma incognita intrigante no seu sorriso. Subimos juntos. Ela se mudou para o 2º andar, apartamento 203. Eu morava no 4º, apartamento 401. A judei com as malas e subi.
- Obrigado pela ajuda! - me disse quando entrei no elevador. Antes de poder falar alguma coisa a porta se fechou.
Me joguei na parede no elevador e me olhei no espelho. Precisava cortar o cabelo. A barba estava bem. Desci e fui até o mercado. Comprei duas garrafas de vinho tinto e voltei pra casa. Bebi uma na primeira hora e dormi. Não sei que horas eram. Mas uma batida na porta me acordou.
- Tem alguma bebida ai? - era ela na porta. Descalça. De shorts e camiseta branca. Antes de pensar alguma coisa vi a tatuagem em seu ombro. Várias abelhas cobriam o seu ombro esquerdo.
- Entra ai que tenho um vinho! - ela já foi entrando e sentando na minha cama. Eu não tinha um sofá. Apenas duas cadeiras. Uma mesa. Um armário. E um toca discos.
- Espera ai que vou buscar um disco! - Saiu correndo enquanto que colocava os copos e o vinho aberto na mesa. Demorou uns 15 minutos e voltou toda animada com um disco preto na mão.
- Coloca ai pra gente!
- O que é isso?!
- Jhonny Cash. Um disco novo dele que eu adoro! - peguei o disco e coloquei pra tocar. A primeira música que tocou foi I won't back down.
Nos servi e ficamos ali escutando o som tocando a melancolia daquele velho. Ela se sentou com um dos pés na cadeira e ficava olhando meu apartamento.
- Você quase não tem móveis. Nem dá pra dizer que alguém mora aqui!
- Uhum! Ganho pouco. Não dá pra fazer nada.
- E você trabalha em que?
- Sou vendedor?
- Vende o que?
- Coisas! E você o que faz?
- Vende que coisas?
- Coisas!
- Como assim?
- Quer beber ou comprar algum de meus produtos. - virou a cara pra mim.
- Você é meio grosso, sabia!
- Sei sim... não gosto de gente!
- Humm... eu sou artista. Faço curso de artes plásticas.
- Pinta ou o que?
- Pinto um pouco e faço esculturas de madeira de vez em quando. Como gasto muito com materiais me mudei pra cá por conta do aluguel barato!
- Vivo aqui porque não tenho dinheiro mesmo. - ela enfia a mão no bolso de traz e tira uma carteira de cigarro.
- Posso fumar?
- Pode! Me dá um ai... - peguei um cigarro e acendi. Só me lembro dela indo embora com a garrafa de vinho pela metade. Disse que tinha aula logo cedo e que não poderia beber mais.
Dormi até as 9:00. cheguei uma hora atrasado no emprego. Minha chefe brigou comigo e disse que iria descontar todas as comissões das vendas que faria naquele dia. Ela sempre me roubava nas comissões. Só recebia as das menores vendas. Sei que ela colova as maiores no nome dela. Mas era um emprego e eu tinha de aguentar até não ter mais grana pra pagar minhas contas e minhas garrafas de bebida.
Passei no mercado e comprei dois maços de cigarro e uma garrafa de wisky barato. Ela estava na porta do prédio conversando com Wallacy. Um amigo que de vez em quando vinha tentar pegar uma grana emprestada comigo ou beber de graça. Tentei passar como se nem os conhecia. Mas não deu muito certo.
- Não cumprimenta mais os amigos! - Ele já veio me abraçando.
- ah... nem tinha visto que era você.
- ok... e ai vamos tomar alguma coisa mais tarde?
- Vou descansar. To bem cansado.
- Mas a sua nova vizinha aqui disse que vai pagar uma garrafa de vinho pra compensar a que bebeu ontem na sua casa!
- Uma amiga minha vem me visitar hoje. Se vocês quiserem se juntar a gente sem problemas.
- Claro que vamos fazer uma festa hoje no ap do meu chapa aqui. - minha casa ia ser invadida por três pessoas estranhas.
- Que bom porque o meu apartamento ainda tá uma bagunça! ah... qual é o nome daquele vinho que tomamos ontem? É muito bom!
- Santa Helena! - respondi subindo as escadas.
- Vou compra uma garrafa pra gente mais tarde então.
- Ok! - Entrei no elevador com Wallacy do meu lado todo feliz.
- É hoje heim. A de cabelo preto já está na sua. Vamos torçer pra amiga dela ser mais ou menos.
- Uhum! - abri meu wisky e dei um trago.
Elas chegaram lá pelas 21:00. Wallacy só falava de apostas e quanto ele tinha ganho no poker essa semana. Mas não comprava nenhuma bebida pra gente. Só tomava a minha. Ela veio novamente de shorts e camiseta branca. A amiga era baixinha. De cabelos castanhos e usava um vestidinho florido. Parecia descendente de índios. Mas era linda. E parecia que as duas já estavam chapadas. Não sei o que tomaram. Mas parecia bom. Bebemos e bebemos até acabar com todo o álcool que trouxeram e que tinha na minha casa. Wallacy tentava a todo custo dar uns beijos na amiga dela. Acho que a menina se chamava Júlia.
- E ae, o que vocês duas tomaram? - Wallacy perguntou.
- Nada! - as duas começaram a rir.
- Vai conta ai! Tem mais? - ela botou a mão no bolso do shortinho e tirou um saco de maconha.
- Poxa e só agora vocês mostram isso! - já era quase 2 da manhã.
Fumamos uns quatro cigarros de maconha. Júlia foi embora de carona com Wallacy. E ela estava dormindo na minha cama capotada com um dos seios amostra e com o botão da bermuda aberto mostrando que não estava de calcinha. Deitei do seu lado pra dormir. Tentar dormir na verdade. Estava de pau duro só de estar do lado dela daquele jeito. Não sei se foi a maconha. Ou os vinhos. Mas não conseguia fazer ele descer. Dormi rápido pelo efeito do álcool. Acordei por volta das 10:00 no chão. Sem cobertor. Me levantei e ela estava na minha cama abraçada com meu travesseiro e nua. Fiquei excitado novamente.
Tomei um banho pra relaxar. Não sei como ela ficou nua daquele jeito. Vesti roupas limpas. E ela continuava dormindo. Sentei do seu lado. Vi aqueles seios branquinhos. Rosadinhos. E de tamanho médio. Aquelas pernas lisinhas e os cabelos da sua buceta. Passei a mão nas suas pernas. Ela se mexeu e acordou.
- Bom dia! - me disse esfregando o rosto!
- Se veste que tenho de sair pra trabalhar!
- Ok! Desculpa por ter dormido aqui, espero não ter te atrapalhado.
- Sem problemas... Foi você que tirou suas roupas né!
- Ah isso! Eu sempre tiro a roupa enquanto durmo. É uma mania.
- Ok. - ela se vestiu e foi embora me dizendo que qualquer dia sairíamos a noite.
Liguei no trabalho dizendo que não iria porque estava no hospital com infecção intestinal. Paguei 50 pratas em uma consulta pra conseguir um atestado.
Um mês passou e nunca mais a vi direito. Nem mesmo pelos corredores. Mas sempre me lembrava dela deitada na minha cama. Dormindo na maior tranquilidade. Alguém bateu na minha porta naquela noite. Achei que era ela vindo tomar mais uma das minhas garrafas de vinho. Abri esperando ver aquele shortinho novamente. Só vi um vestido branco com flores amarelas claras. Era Júlia.
Veio visitar a amiga e como ela não estava resolveu dar uma passa no meu apartamento. Abri uma garrafa de vinho. E começamos a beber. Conversar. Escutar música. Quando dei por mim estava beijando ela e tirando seu vestido. Ela não usava sutiã. Seus seios eram pequenos. Cabiam na palma da mão.
- Me aperta! - ela dizia no meu ouvido. E eu a apertava pela cintura.
- Me aperta mais! Mais! Me bate! Me bate na cara! - demora um tempo pro homem aprender a bater em uma mulher que gosta de apanhar sem machucá-la. Se o tapa sair errado o rosto dela vai inchar ou ficar até roxo. Tem de se bater com a ponta dos dedos levando a mão pra cima. Ai só arde e elas adoram tanto na bunda como na cara.
Ela gostava de ser dominada. De tomar tapas. De fazer tudo que o cara queria. Fazia todas as posições. Era só ter firmeza que aquela baixinha se derretia. Passamos a noite transando. Foi uma boa trepada. Ficamos nessa durante uma semana. E o nível de submissão dela era impressionante. Em uma dessas tirei o pau de dentro dela pra gozar fora.
- Abre a boca vadia! - ela abriu a boca. - engole tudo! - gozei e ela engoliu.
- Obrigado! Eu te adoro! Faz comigo o que quiser! Você é meu homem! Me come! Me fode!
- Ah é! Então deita ai que vou cagar na suas costas!
- Não... isso não!
- Isso sim! Cala a boca e deita ai! - ela aceitou e se deitou no chão!
Fiquei de cócoras. Na posição de cagar. Começei a passar a bunda nas suas costas. Ela tremia. Então enfiei os dedos na sua buceta. Ela estava toda molhada. Acariciava sua bunda. Costas. Buceta. E ameaçava que estava saindo. Ela gozou. Gozou de novo. E eu sai dali. A levantei dei um beijo na sua boca e dormimos. Não cheguei a cagar. Nem iria. Só ameacei pra ver até aonde aquela submissão iria.
Júlia passou a frequentar bastante meu apartamento. E nada mais de sua amiga. Quando ela apareceu na minha porta toda arrumada com um cachecol colorido.
- Pegue as chaves do carro que vamos dar uma volta!
Vesti uma camisa e entramos no meu fusca velho.
- Trouxe algo para a gente! - me disse enquanto eu dirigia.
- O que?
- Um Santa Helena! - tira o vinho da bolsa.
- Que bom. Mas vamos para aonde?
- Em um bar que conheço! Do Léo!
- Vamos beber o vinho antes?
- Não vamos beber lá!
- Ok! - seguimos para o bar.
Sentamos. Bebemos. Conversamos. Ela tocava a minha mão com seus dedos macios. Ríamos. Trocávamos gracejos. Mas todas vez que ela vinha com suas sutilezas esperando uma reação mais direta minha. Eu congelava. Ela conseguia me congelar. Queria beijá-la mais do que tudo. Sentir suas unhas nas minhas costelas. Deixar ela cavalgar em mim a noite toda. Fazer o que quiser comigo. Mas eu não conseguia reagir nas suas sutilezas. Bebemos mais um pouco e fomos embora. Quando estacionava o carro ela me parou e disse:
- Nossa! Estava com muitas saudades de você! Deixa eu te dar um beijo pra você dormir bem!
Segurou meu rosto e me deu um beijo estranho perto da boca, da bochecha e do nariz. Saiu correndo e entrou no prédio enquanto eu guardava o carro. Na minha cabeça veio a música Domingos. Passaram-se alguns dias e Júlia retorna ao meu apartamento. Desde aquele dia não tinha mais visto sua amiga.
- Ela se mudou! Foi pra outra cidade! - Júlia respondeu quando perguntei sobre ela.
- Como?! - achei estranho.
- É! ela foi embora! Largou a faculdade e tudo mais. - sai sem camisa e de calça jeans pra ver o apartamento dela.
Bati na porta. Ninguém respondia. Chamei por ela e nada. Girei a maçaneta e a porta se abriu. Não tinha nada lá. Apenas o cheiro estranho do seu perfume e da maconha que fumava o dia inteiro.
Voltei pro apartamento. Mandei Júlia embora e apenas ouvi:
Nos ouvidos um som de violino
Na frente uma prateleira de imagens
Por fora uma solidão
Por dentro uma indiferença
Na boca um gosto de solidão
No corpo um suéter velho com cheiro de cigarro
No rosto um beijo estranho
No coração um esperança de novo ter algo novo
E
Na mente,
Um resto
De
Humanidade
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Inflação
Ela se aconchegou
no meu dinheiro
segurou minhas moedas
se derreteu sobre meu ouro
mastigou meus diamantes e
cuspiu cacos de vidro no meu rosto
me cobrou por um beijo...
ELA
era uma PUTA!
Mas eu a amei
como nos meus quatorze anos.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Fumaça hedonística – Parte I
Com a chegada da década de 90 as restrições subliminares que a sociedade impôs sobre os demais no quesito saúde afetaram também aos negócios, mas a que mais incomodou o Dr. Alberto foram às novas leis que restringiam o consumo de tabaco – cigarros e derivados – em locais públicos e de trabalho.
Dr. Alberto, advogado, com aproximadamente 40 anos começou a fumar aos 13 anos de idade, aprendeu a saborear o tabaco, os charutos cubanos caros que comprava de um doleiro, o seu cachimbo com fumo irlandês, mas não deixava faltar no bolso de seu paletó o sua velha companheira, uma carteira de cigarro cheia esperando pelo chamado.
Mas além do cigarro o que mais agradava Dr. Alberto nos últimos tempos era a chegar em seu escritório e chamar Emanuela, sua secretária de 22 anos que acabará de começar o curso de direito, influenciada pelo chefe. Emanuela era loira, com um corpo normal, possuía apenas um busto mais avantajado do que as demais mulheres, mas o que deixava Dr. Alberto excitado eram as saias extremamente apertadas de Emanuela, daquelas que iam até o joelho, ver aquele par de pernas longo zanzando pra lá e pra cá fazia Dr. Alberto se sentir no paraíso.
Tentou várias vezes chamar a secretária pra sair, prometia casamento, roupas, apartamento, tudo que ela quisesse, mas Emanuela sempre respondia sorrindo:
- Ah Dr. Alberto, para com essas brincadeiras e vamos trabalhar!
Dr. Alberto sempre ficava pensando quando ouvia essa resposta: “Será que ela acha que estou brincando? Será que ela não entende que quero ela de verdade ou só está jogando comigo pra ver até onde eu iria pra provar que realmente que ficar com ela. Já faz um ano que fico nessas tentativas e ela sempre responde a mesma coisa, se ela realmente achasse que era brincadeira depois de um ano mudaria sua resposta, essa menina está realmente brincando comigo! Mas ainda a pego de jeito!”
Mas para piorar o desejo de Dr. Alberto, um advogado recém formado, Rubens, que fora recentemente contrato havia se interessado por Emanuela e ela retribuía tal interesse levando cafezinhos e bolinhos para o novo colega de trabalho. Dr. Alberto rasgava pelo menos duas pastas quando via aquela cena e logo mandava Rubens fazer serviço de rua, ficando com apenas um pensamento na cabeça: “Será que é por causa da idade ou ela está me provocando?”
Não demorou muito e aqueles dois começaram a sair para aumentar o sofrimento de Dr. Alberto, dava dó da tristeza com a qual se dirigia para o escritório e dava medo dos acessos de raiva que passou a ter por conta de qualquer besteira.
Para piorar passou a fumar muito mais em seu escritório, ao ponto de incomodar os funcionários, que sempre se dirigiam a Emanuela:
- Vai lá e fala com o chefe que tá fedendo muito aqui, mesmo com a porta fechada a gente ainda sente o cheiro dos cigarros!
- Pode deixar que vou pedir para ele tentar diminuir o cigarro! – Respondia Emanuela e se dirigia a sala do chefe.
- Dr. Alberto? – Perguntava batendo na porta.
- Pode entrar Emanuela!
- Com licença Dr., eu não queria me intrometer na sua vida mas os outros funcionários estão reclamando muito do cheiro de fumaça do escritório do senhor.
- Se não queria se intrometer já se intrometeu! Você me vê falando alguma sobre o seu comportamento?! Vê? Vê? Claro que não, ainda mais quando está saindo com um frangote feito o Rubens, isso sim é algo que incomoda os outros! Agora sai da minha sala e vai fazer o seu serviço!
- Claro Dr., desculpa incomodar.
Ela sai da sala meio atordoada. Todos no escritório estão estáticos vendo-a se sentar em sua mesa. Escutaram apenas um murmúrios, mas sabiam que havia tomado uma bronca. Foi a primeira vez que Dr. Alberto a tratara assim, nunca havia sido grosseiro com ela. Mas o que mais a incomodou foi a fala sobre o seu recente namoro com Rubens. Percebeu que todas as vezes que achou que Dr. Alberto falava aquelas coisas pra ela não eram brincadeiras. Pensou instantaneamente em largar o emprego. Não sabia se poderia ou não continuar trabalhando ali. E do nada lágrimas começaram a correr em seus olhos.
- O que aconteceu Emanuela? O que ele te falou? – Perguntava Rubens, mas ela só ficava chorando o que acendeu a chama animalesca de proteção da fêmea amada em Rubens.
- Eu vou tirar satisfação com ele! Quem ele pensa que é? – Falou Rubens saindo em passos largos e pesados em direção a sala do chefe.
Foi parado apenas por um som baixo, mas ainda pesado que chegou aos seus ouvidos quase como um sussurro. Era Emanuela.
- Se você entrar naquela sala estará tudo acabado entre nós!
Aquela pequena frase o congelou. Suas pernas que caminhavam firmes pareciam gelatina agora. Tentou argumentar.
- Mas...
- Fique quieto e volte ao trabalho! – Foi interrompido antes mesmo de completar uma frase.
Seguiu calado para sua sala. Igual a um preso que segue condenado para a sua cela com apenas o sentimento de ter sido abandonado por todos. Se sentou jogando o peso da dor e do medo que aquelas palavras caíram sobre sua cabeça.
domingo, 20 de fevereiro de 2011
Escrevendo
Hoje comecei a escrever um romance. Foram apenas duas falas. Mas já era um romance. Pensei em ir para casa abrir uma garrafa de vinho e continuar escrevendo. Briguei com minha mulher e acabei em um bar qualquer discutindo sobre traiçao, relacionamentos e - mais um gole de cerveja - casamento. Depois de duas doses de cachaça e umas cervejas afins, percebi que escrever um romance bebâdo e escrever um romance bebendo é o mesmo que tentar transar depois de tomar um litro de wisky e tomar um blody mary. A bebida é como um insigth de freud mas é também como as brasas de zaratrusta! Alguém tem um isqueiro na mão?
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Passeio na praia
Reduzido a estilhaços de vidro
Em um céu psicomântico
Onde profecias são cantadas
Pelos anjos de néon
Meteoros se jogam na terra
Glorioso é o caos do armagedon
Os formigueiros desmoronam
Deuses descem do céu
Cavalgando as esferas de fogo
Os gritos de pavor
São orquestrados por Loki
A fusão dos universos
Explode em nossos corações
As eras passadas se comprimem
Nos dentes serrilhados do alicate temporal
Glorioso é o caos do armagedon
Novos espíritos revolucionários
Nascem da desolação
Nos templos monoteístas
Multidões cantam o mantra de lótus
Jovens pederastas fazem sexo
Chaos and love
A nova ordem mundial
Farmácias distribuem cápsulas atômicas
Nos asilos os velhos vomitam
A ilusão de um passado fracassado
Os computadores fabricam suicidas
Crianças cortam os pulsos
Glorioso é o caos do armagedon...
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
Nisei
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Um lugar para voltar
Deitei sobre seu peito
Coberto por minha camiseta
Preta
Que cheirava a
Dois dias de trabalho
Olhando suas mãos
Com unhas pintadas
De roxo
Que começavam
A descascar
As pontas já perdiam
A cor
E deixava a cor natural
Aparecer
O meu corpo
Se esgotou
Cheirava a minerais e a paixão
O destino havia sido
Bom
Me deu um colo
Para deitar
Um que não havia
Pedido
Mas que agora era
Meu
Várias garrafas na geladeira
Sem sede por álcool
Só quis ficar deitado
Ali
Era a minha casa
Achei um lugar para voltar
De todas as bebedeiras
Do mundo a mais
Pesada
É a do amor por uma
Mulher
Que te abraça e diz “TE AMO”
E você sabe que tem
De voltar
Para os seus braços
Os velhotes da segunda
Geração romântica
Acertaram em
Algumas coisas
Agora com a minha
Mala nas costas
Volto para a terra dos homens
Que amam
Volto para minha casa
Para minha mulher
Para aquela que
Me aceitou
Mesmo sem poder
Dar nada de bom para ela
Só me aceita
E este débito não
Posso pagar...
É uma dívida perpétua
E dívidas como essas
Só se paga com a vida...
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Caçando
O que poderia acontecer daqui cinco minutos? Comecei a ler um livro sobre carneiros e publicidade, são animais interessantes, sempre comendo e fazendo os outros felizes só de olhar para eles. Só tenho negativas no meu vocabulário. E as batidas na máquina parece que pararam. Talvez tenha sonhado demais e acordei muito rápido para comer tomates no mês de dezembro. Comi todos que estavam na caixa. Tinha apenas 19 tomates. Assassinei todos. Depois disso não sou mais quem eu pensava ser. O jazz parou de tocar na minha mente.
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Asunción de ti
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Histoire d'O
Teresa tinha apenas uma obsessão para os dias frios de inverno. Assistir filmes com histórias intrigantes e sexuais debaixo de um cobertor. Adorava a sensação dos corpos nus encaixados um no outro. Os pelos fazendo cócegas em seu corpo. Aquela mão passando por sua barriga. E aquela excitação começando a crescer. Tudo isso fazia o filme mais gostoso. O sexo acontecia e as cenas rolavam. O gozo vinha e presos um no outro aguardando o final do filme para deixar a brisa fria roçar nas costas de ambos na ida para o banheiro.
Começava o inverno e seu namorado a havia abandonado. Foi traída. Humilhada. Correra atrás dele durante meses a fio. E nestes meses de batalha tinha se aproximado muito de Vadinho. Um dos melhores amigos de seu ex. A amizade dos dois jamais fora tão próxima. Parecia que existia um muro entre os dois quando namorava o amigo de Vadinho. Descobriu que era pelo respeito que ele tinha por seu amigo. Agora Teresa conhecia quem era Vadinho. A batalha estava praticamente perdida visto que seu ex começara a namorar outra garota. E com Vadinho as conversas sempre tinham um cunho sexual. Não havia desejo aparente. Apenas brincadeiras.
Mas algo estava acontecendo. Uma certa curiosidade estava tomando conta de ambos. E Teresa estava decidida a matar essa curiosidade. Sabia que Vadinho não cederia facilmente. Respeitava a idéia de ex de amigos seus. Ele mesmo não importava muito com isso. Mas ainda existiam caras que acreditavam nisso. Vadinho não se importaria em transar com todas as ex de seus amigos. Só não o fazia por respeito a eles. Se bem que muitas delas eram muito belas e atrativas.
Ocorre que em uma de suas conversas com Teresa citou que iria assistir História de O. Um filme completamente sexual. Conhecido como o filme que consagrara o pornô-soft. Ela logo se auto-convidou. A imaginação de Vadinho logo alçou vôo. A imaginou nua com ele embaixo de um cobertor encaixada entre suas pernas. Preso. Protegido. Teve uma ereção na mesma hora. Mudou de assusto e deixou as coisas correrem. Mas já havia dito o dia que iria assistir.
Teresa viu ao a oportunidade que esperava para sanar sua curiosidade. Mesmo ele não a tendo convidado se preparou para dar o bote fatal. No domingo a tarde bate na porta da casa de Vadinho. Ele atende e os dois vão para a sala. Ele se assustou com a visita. Mas se excitou. Tinha acabado de começar a assistir o filme. Ali já tinha um cobertor. O sofá cama laranja já estava aberto. Tudo ali era propício. O filme exalava sexo. O sofá exalava sexo. Teresa era puro sexo com seu cachecol no pescoço. Vadinho era o próprio sexo manifestado em um ser humano.
O filme voltou a rolar. As intenções eram claras. Teresa havia ganhado um cobertor. Agora dividiam o estreito sofá cama. O contato físico de ambos era presente. Só tinham os cobertores entre eles e o possível encontro de seus corpos. Lentamente foram se encaixando um no outro. Assistindo o filme lado. O cobertor ainda atrapalhava. Instantaneamente ambos ergueram seus cobertores e dividiam um só. Vadinho começava a mostrar sua empolgação masculina crescendo ao se encontrar com as costas e anca de Teresa. As meias foram as primeiras a sumir. Arrancaram uma do outro com seus pés. Seus corpos sabiam claramente como se livrar dos empecilhos.
Os seios de Teresa começaram a sair de sua blusa. Havia ido sem sutiã. Não queria dificultar os toques de Vadinho. Um gemido suave saiu de sua boca no instante em que alcançava as nádegas de Vadinho. Prendeu suas unhas nela. Sentiu então a força rígida que logo a penetraria lhe encostar. Lubrificou. Vadinho fez questão de conferir. Colocando dois dedos levemente entre as pétalas de Teresa viu escorrer em seu dedos o néctar que ele havia provocado. Levou os dedos a boca de Teresa. Ela engoliu seu próprio sabor como se fosse a primeira vez. Ele quis beija-la. Retirar o que restava daquele néctar. Suas língua se fundiam em contorções.
No ápice de excitação as roupas já não estavam mais ali. Se prenderam um no outro. ele levou seu falo para dentro da cona de Teresa que teve uma leve contração. Era o encontro de um furor que a muito estava estancado dentro dela. Os movimentos de Vadinho eram lentos. Queria sentir seu falo ser encoberto pela cona sedosa e quente de Teresa. A cada penetração ambos pareciam morrer. Seus corpos estavam em puro êxtase. Suas carnes tremiam. Seus sexos descarregavam, mas continuavam a se encontrarem e desencontrarem. Gozaram juntos. Gozaram separados. Ficaram juntos durante quase uma hora de filme. Descansaram com a melodia romântica que tocava no fundo da sala. O filme ainda não havia acabado. Mas aqueles corpos estavam esgotados. Sugaram um do outro todo o vigor que um possuía.
Ejetado o DVD. Se despediram com um beijo no rosto. Ela saiu como havia entrado.
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Muito bem...
sempre estou com o último cigarro
com a última cerveja
com a última conta
esperando a última gota
de esperança se esvair
dos meus olhos
Dexter Gordon
tocava bem,
eu minto bem,
me engano sempre e
engano os outros muito bem
eles querem ser enganados
querem minhas mentiras
ouvem atentamente as elucubrações
de sanatório que regurgito
acham algumas vezes que sou
inteligente
mas não sabem
que estou sempre me acabando
sendo comido por dentro
pela futilidade pedante
que me deixo levar
todos ao meu redor são assim
mentem muito bem
atuam junto comigo em
uma peça muito bem ensaiada
pedi demissão desse grupo de teatro
voltei para os meus últimos cigarros
minhas últimas cervejas
e minhas últimas contas
para esperar essa última
gota de esperança
escorrer
e se misturar ao mundo
numa explosão de supernovas
que me levará ao oriente
a templos budistas
me deixando de fronte a
BUDA
para andar na palma de sua mão
me sentar nela
e lhe contar as minhas profecias
fazer dele meu discípulo
lhe ensinar o poder da embriaguez
consciente
enquanto me embriago
com as mais lindas
pernas orientais que giram o mundo
em seu compasso diminuto
vamos subir nas mais altas
torres e comer pão a céu aberto
deixar cair as migalhas nos transeuntes
rasgar livros para que montem o quebra cabeça
e deixar tudo isso para andar
nas conchas do pacífico
depois iremos nos despedir
pois estarei andando e entrando
nas abobadas mais amorosas
e quentes que já se viram
busco nelas a paixão de me fazer
PARAR
RESPIRAR
E MORRER
mas antes de todo esse cataclismo
hipnótico
a última cerveja
a última conta
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Canção do vento
Eu deveria salgar minha língua
Para tirar essa abissal doçura poética
Que formiga nos meus lábios
E se acaba no papel
Deveria ouvir mais os meus amigos bêbados
Desnudar meu corpo
E sangrar a céu aberto
Correr entre os carros que passam
Desgovernados
Gritando ao ouvido de seus motoristas
Que parem o motor e liguem a vida
Deveria rir das piadas que conto
Sem fingir que sou bom
Fazer correr nos meus olhos
As cores vividas da terra
Deixar os atabaques cantarem
Os meus passos
Deveria me entregar ao mundo astral
Transar com os deuses e com todas
As constelações
Deixar o sol se por e
Se levantar quando estender a
Noite que é sempre ávida
E cheia do amor puro e sensual
Da adolescência
Deveria lembrar que os meus ombros
Sempre doem no fim do dia
Que minha cama está sempre vazia
E o chão coberto de mim
Devo, devo, devo...
Preciso, preciso, preciso...
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Maridos complacentes
sexta-feira, 29 de maio de 2009
The real folk blues
Tinha acabado um livro de Kerouac e vesti meu blue jeans pensando que definitivamente não sou como os beat’s. Eles amavam o jazz. Prefiro um blues. Gosto de ouvir Sony Boy com sua gaita me fazendo esquecer da poeira que bate nos meus olhos todos os dias. Ainda mais aqui onde só se tem construções. Até que eu chegue no metro vai ter muito chão e muito pó. Prometi levar dois livros pra dois amigos. Mas para comprá-los vou ter de andar muito. Pelo menos até o metro e depois dentro de sebos e livrarias. Mas a minha recompensa será uma boa cerveja na volta. Meu aniversário chegando e eu indo comprar presentes para os outros.
A estação se parece com uma sala de espera. Daquelas onde ninguém se conhece, mas sabe o porquê de se estar ali. Todos se olham e praticamente se conhecem. Dividem o mesmo fato. A mesma história por alguns minutos. Mas ao se passar da porta do metro as coisas mudam. Ainda mais no final do dia. Os rostos cansados, abatidos e domestificados dos trabalhadores mostram o resultado de seu trabalho. Os únicos que não parecem cansados são os jovens com menos de 18 anos. Ainda não sentiram a humilhação de se vender e valorizar o fruto da sua venda pessoal.
Um banco vaga ao meu lado. Todos se olham. Me olham. Esperam que eu sente. Esperam. Me olham denovo. O banco ainda está vazio. Um careca senta com a satisfação de um animal quando recebe um carinho do dono. Mas o seu sorriso não muda por muito tempo, logo ele se junta a multidão de pessoas cansadas. Apóia a cabeça na palma de sua mão e o cotovelo na janela. Mesmo que por uma estação ele deixará o peso da sua vida escorrer naquele banco.
Na minha cabeça ainda vem à melodia de Sony Boy. Sua gaita é impressionante. Me faz até ter um sorriso bobo estampado na cara. O ritmo balbuciante do metro nos trilhos me lembrou a sua batida. A boa música não vai me abandonar. Ela nunca abandona quem a espera.
Na última estação eu desço. Horário de pico. Final de expediente. Milhares de pessoas rodeando o mesmo lugar. Acima da estação de trem há uma central de ônibus com dezenas de bancas ao redor, pode se comprar de tudo ali. De aparelhos eletrônico a um bom estimulante mental. Ali é onde toda a população que conheceu apenas a moral do operário se encontra. Esse é o meu lugar. Onde acho os meus iguais. Pastores evangélicos pregam nas escadas, e seus fieis distribuem folhetos prontos para lhe conceder o perdão dos seus pecados e o Reino dos Céus de forma instantânea. Mendigos rodeiam os bares pedindo mais um trago diário.
É fácil identificar as prostitutas que rondam os ônibus. Elas são as únicas a terem a maquiagem muito bem feita e provocante. No final de expediente. Não há baton que resista na boca de uma mulher que trabalhou oito horas seguidas. Mas o dia para a prostituta só está começando, a noite é o seu local de trabalho. Seu andar tem um balançar único. Elas sabem como movimentar suas pernas. Poucas são a mulheres que sabem mexer as pernas como se deve.
Chegando a porta da estação tenho duas escolhas, ir para a esquerda ou a para a direita. A direita irei para um Shopping atrás da minha busca literária. A esquerda tenho a possibilidade de respirar o cheiro de urina jogado no concreto frio de uma galeria de lojas que um dia foi um centro de diversões para adultos. A pior escolha deve vir primeiro. O Shopping. Nunca aprendi a andar nesses lugares. As mulheres ali nunca me excitam completamente. Me sinto ignorado, inexistente. Perdi uma hora em vão. Não achei o que queria.
A minha recompensa está há alguns metros dali. O antigo centro de diversões. A sua imagem a distância é bela. O concreto me chama com sua frieza. Um cigarro vem a minha boca quase que instantaneamente. Essa fumaça me alivia. Sua cor acinzentada é pura. Como as galerias que me esperam. No meio dessas galerias encontrei três igrejas evangélicas, vários cafés, lojas de discos, sapatos, livros jurídicos, um velho sebo que estava fechado e vários bares no centro de todas as lojas. Tinham mais três cinemas pornôs onde se paga de
Escolho o bar. A mesa. A cerveja e logo arrumo companhia. Um contador se senta na minha mesa. Ofereci um assento para ele.
- Tudo bom? Prazer meu nome é Carlos. – se apresenta depois de sentar.
Com tantas mulheres passando e se oferecendo pra nós por apenas uns trocados logo nossa conversa cai sobre como as mulheres podem ser safadas. Ele começa então.
- Cara, eu era amante de uma mulher. Ela largou o marido e hoje nós namoramos. Olha pra tu ver como são as coisas.
- Tu já aceitou que é corno? – dou uma boa golada na minha cerveja e espero a resposta.
- Que isso cara! Ela não faria isso! – me respondeu com os olhos estufados, dou mais uma golada pra poder dar a resposta que ele já sabe.
- Ela traia o marido com você, agora ela te trai com outro. Nunca subestime uma mulher que conheceu o sexo nos braços de outro homem. – ele coça a cabeça, se preocupa e muda de assunto.
Algumas cervejas depois e quase uma carteira de cigarro vou voltar pra casa sem os livros e com um jornal ganho gratuitamente na estação de ônibus. Com o nome perfeito, o jornal se chama “O Coletivo”. Um bom jornal, tem notícias locais e do mundo todo, além de uma seção de variedades. No metro ainda há os trabalhadores cansados. O balanço recomeça e a batida do blues me vem a cabeça.
Uma loira se encosta no primeiro apoio depois da porta do metro. Deveria ter uns 40 anos de idade, mas o tempo parecia não ter tocado muito o seu corpo. Tinha apenas as mãos um pouco machucadas. Com as unhas feitas, das mãos e dos pés, uma calça que realçava o formato de seu corpo ainda capaz de ceder a noites e mais noites sobre uma cama qualquer. Ela limpa o rimel de seus olhos. Todos os homens ao seu redor a observam, pelo menos por alguns instantes, até sentirem que aquela mulher de olhos verdes era irredutível. Com uma aliança de casamento nova no dedo, ainda brilhava bastante, o marido deu de surpresa para ela, talvez tentando renovar os votos de um casamento de anos, era maior que o seu dedo, deslizava, mas não caia. Por isso deveria ser um presente surpresa.
Ela tira metade de uma barra de cereais de sua bolsa. Deve trabalhar muito. Nem teve tempo de comer aquela pequena barra inteira. A devora. Seu rosto mostra que sentira o sabor da satisfação. Aplacara sua fome. Ninguém parecia mais a observar. Eu não deixaria de olhar para uma mulher tão melodiosa. Ainda mais quando percebo seus olhos incharem. Limpa novamente o rimel. Faz isso várias vezes. Começou a chorar. Um choro contido. Preso dentro do peito. Limpava cautelosamente para que nenhuma lágrima escapasse de seus dedos ágeis. Mas lágrimas são pesadas. As dela pareciam de chumbo. Uma consegue fugir de sua agilidade. Escorre e vai parar na ponta de seu lábio superior. Limpa e contém o choro. Ninguém viu essa lágrima cair.
Em alguns instantes chegarei na minha estação. Seguro no mesmo apoio que ela. Espero as portas se abrirem. Me aproximo de seu ouvido e digo a única coisa que poderia sair da minha boca.
- Foi lindo, te ver chorar!
Desço e paro diante da porta. Acendo meu último cigarro e volto pra casa. Quero terminar de ler “O Coletivo” ainda hoje.
segunda-feira, 18 de maio de 2009
12 mortos e 13 feridos no Azerbaijão
Sai para mamar uma cerveja enquanto decidia se iria ou não procurar emprego. Sentei em um bar qualquer e fiquei ali olhando pra uma tv no lado esquerdo do balcão. Só vendo os rostos passarem sem significado. A razão de todos os bares terem um tv sempre foi um incógnita pra mim. Acredito que seja para os garçons não ficarem entediados. Mas um rosto teve significado. Era Gadyrov. Um dos meus vizinhos. Tinha se mudado para cá há uns três meses. Veio do Azerbaijão. Bebia e fumava o dia inteiro. Trabalhava como tradutor de francês para uma editora. Mas o que ele teria feito?
- Aumenta o volume da TV ai! – disse pro garçom que nunca deve ter ouvido esse pedido na vida dele.
- Só um minuto.
A repórter estava na porta de uma Universidade no Azerbaijão e dizia que o jovem Gadyrov matara 12 pessoas e ferira outras 13 antes de se matar. E que ninguém sabia o motivo deste ato bárbaro. Não pensava que ele seria capaz de algo assim. Tinha sumido à duas semanas. Conversei com ele umas cinco vezes nesses três meses que ele estava morando no apartamento do lado. Em uma dessas vezes ele me chamou para beber na sua casa. Disse que tinha umas cervejas e uma garrafa de um bom vinho tinto. O vinho era bom. Seco. Do jeito que eu gosto.
Ele me contou a sua história. Que dois anos atrás sua noiva o largou. Mesmo ele tendo pagado os estudos dela. O motivo é que ela conhecera um mundo diferente. Que o mundo acadêmico era diferente do mundo que ele oferecia pra ela. Gadyrov era uma boa pessoa. Morou três anos na França e tinha voltado pro Azerbaijão para trabalhar como tradutor de francês. Conheceu Ólya quando ela trabalhava como garçonete em uma lanchonete. Começaram a namorar e ela mudou pra casa dele.
O romance tinha começado bem. E Gadyrov estava cada dia mais apaixonado. Dava inúmeros livros para Ólya ler. Ensinou pra ela o francês e fez ela retomar os estudos. Ela não havia terminado o ensino médio. Tinha parado no fundamental. Disse que se ela se saísse bem ajudaria ela a pagar uma faculdade. Ela era inteligente. E esforçada. Não perderia uma oportunidade de mudar de vida assim. Estudou e entrou para a Academia Estatal do Petróleo.
O que era um sonho foi se enfraquecendo aos olhos de Gadyrov. Ela que só o via. Agora tinha amigos. Colegas de estudo. Trabalhos para fazer. Começaram a se distanciar. Só não se distanciaram na cama. Era um alívio pra ele. Provava que ela ainda era dele. E pra tentar resolver o problema da distância a pediu em casamento. Se com mulheres isso resolvesse a taxa de divórcios e o número de bêbados nos bares a tarde não seriam tão grandes.
Então o esperado aconteceu. Ela o largou. Ele contava isso chorando e bebendo no gargalo da garrafa de vinho. Chorou mais um pouco e secou a garrafa. A jogou dentro do banheiro onde tinha mais umas duas. Enxugou as lágrimas e começou a esbravejar:
- Um dia ainda mato aqueles professores, aqueles monitores que tiraram ela de mim! – gritava engolindo o choro.
- Que isso Gadyrov, os caras não teem culpa! Ela foi embora porque quis, elas sempre inventam desculpas, mas vão porque enjoaram da gente.
- Não foi isso, sempre nos entendemos bem! Aqueles professores falaram pra ela ir estudar fora, que ali e casada ela não teria futuro!
- Calma ai Gadyrov, acabou porque tinha de acabar, tudo o que você poderia oferecer pra ela já tinha sido oferecido. Ela queria mais, só isso! Me dá uma cerveja ai!
- Eu poderia oferecer muito mais pra ela, uma casa boa, uma família...
- Mas ela queria mais que isso, ou nem isso!
Chorou mais um pouco e desabou. Fechei a porta levando comigo seis cervejas como pagamento pela conversa e fui embora. Toda vez que o encontrava depois disso ele estava bêbado. Gritava que iria matar aqueles que tiraram Ólya dele. Fazia esse show todos os dias na porta do prédio. Eu ficava na janela bebericando uma cerveja e assistindo o pobre gritar até se cansar. Caia sentado no chão e o porteiro do prédio o levava pro seu apartamento. Só escutava a reclamação.
- Esse cara não aprende mesmo, todo dia tenho de traze-lo pro seu quarto, não recebo pra isso.
A vida é sempre põe uns loucos no mundo. Alguns só fazem promessas de fazer loucuras. Mas de vez em quando tem aqueles que cumprem o que prometem. E Farda Gadyrov foi um desses. Matou 12 e deixou 13 feridos.
- Mais uma cerveja! – sem isso não dá pra engolir a notícia.
Notícia retirada do site:


















